Pesquisa Cobasi revela que gatos pretos demoram mais para encontrar um lar — e a questão estética pode estar por trás deste cenário

Fonte: Envato

A lenda de que gatos pretos dão azar é bastante antiga e tem origem na Idade Média, quando os felinos de pelagem escura começaram a estampar as histórias de bruxas.

Ao longo dos séculos, essa narrativa atravessou culturas, se reinventou em diferentes contextos e chegou até os dias atuais como simples superstições.

No entanto, basta a sexta-feira cair no 13º dia do mês ou o Halloween se aproximar para que os mitos e crenças populares sobre gatos pretos voltem a circular nas redes sociais.

Mas afinal, será que as superstições envolvendo os felinos de pelagem escura podem estar por trás de decisões reais, como o abandono ou a adoção desses animais?

Para responder a essa pergunta, o Cobasi Cuida, pilar social da Cobasi, realizou uma pesquisa com 41 ONGs de proteção animal que atuam no resgate, acolhimento e adoção de gatos por todo o Brasil.

O levantamento investigou se o abandono de gatos pretos é superior ao de pets com outras pelagens, se datas simbólicas podem aumentar o número de casos e como isso impacta o processo de adoção dos felinos.

Os resultados ajudam a separar mito da realidade — e revelam um cenário mais complexo do que parece. 

Metodologia e perfil dos entrevistados: quem participou da pesquisa sobre gatos pretos do Cobasi Cuida?

Para garantir resultados confiáveis e atualizados, a pesquisa sobre a realidade dos gatos pretos no Brasil aconteceu durante a primeira quinzena do mês de fevereiro de 2026.

Os dados foram obtidos através de um questionário online disparado para representantes de 41 ONGs de proteção animal espalhadas por diversas regiões do país.

Onde estão essas ONGs?

A maior parte das organizações participantes está concentrada em estados com alta densidade populacional e grande volume de resgate animal urbano, incluindo:

  • 44% — São Paulo (SP)
  • 10% — Distrito Federal (DF)
  • 7% — Paraná (PR)
  • 7% — Rio de Janeiro (RJ)
  • 7% — Rio Grande do Sul (RS)
  • 5% — Ceará (CE)
  • 5% — Paraíba (PB)
  • 5% — Santa Catarina (SC)

A diversidade geográfica é importante porque o cenário de abandono e adoção pode variar conforme o contexto social, econômico e estrutural de cada região.

Quais atividades essas ONGs desenvolvem?

As organizações parceiras atuam em diferentes frentes da proteção animal, o que amplia a consistência da análise. As principais atividades listadas foram:

  • 30% — Abrigo temporário para gatos
  • 23% — Processos de adoção
  • 21% — Resgate animal urbano
  • 18% — Educação e conscientização animal
  • 16% — Castração e manejo de colônias de gatos (CED)

Embora ainda exista um desafio de padronização no setor, 90% das ONGs ouvidas trabalham com algum nível de registro de entrada e saída dos animais — informações que trouxeram mais confiabilidade para os resultados obtidos. Veja nossas principais descobertas a seguir!

Gatos pretos chegam até às ONGs com mais frequência

Fonte: Envato

Como o ciclo de adoção geralmente começa pelo resgate, o primeiro ponto analisado pela pesquisa foi como os gatos pretos chegam até as instituições de proteção animal.

Entre as organizações participantes, 68% afirmam que os felinos de pelagem escura são resgatados em proporções acima da média quando comparados a gatos de outras cores.

  • 41% dizem que a presença é um pouco acima da média.
  • 27% afirmam que é muito acima da média.
  • 27% relatam proporção semelhante à de outras pelagens.
  • 5% indicam presença abaixo da média.

Quando o foco passa para a origem das entradas, duas situações ganham destaque: o abandono direto (41%) e o resgate de gatos de rua (41%):

  • 41% citaram abandono direto.
  • 41% citaram resgate de gatos de rua.
  • 7% mencionaram manejo de colônias de gatos (CED).
  • 2% citaram entrega voluntária de animal por ex-tutor.
  • 2% relataram devolução de adoção.

Mas atenção: isso não significa que os gatos pretos são mais abandonados do que os felinos de outras pelagens.

Afinal, as respostas incluíam dados de todos os animais acolhidos pelas instituições de proteção nos últimos 12 meses.

O panorama também dialoga com os resultados da Pesquisa sobre Abandono de Animais realizada pelo Cobasi Cuida em 2025, que já apontavam o abandono e o resgate em áreas urbanas como os principais fatores que levam cães e gatos às ONGs brasileiras.

Halloween e sextas-feiras 13 não aumentam os casos de abandono de gatos pretos

Uma hipótese popular é que datas simbólicas, como o Halloween e sextas-feiras 13, poderiam provocar um aumento nos casos de abandono de felinos de pelagem escura.

Afinal, crenças populares e mitos sobre gatos pretos costumam ganhar força quando esses eventos se aproximam.

No entanto, os dados da pesquisa mostram que essa relação é muito menos significativa do que poderíamos imaginar. 

Entre as ONGs entrevistadas, apenas 9% citaram o Dia das Bruxas e sextas-feiras 13 como períodos de maior abandono de gatos pretos.

Quando questionadas sobre os momentos em que mais recebem animais, as respostas indicam um cenário mais distribuído ao longo do ano:

  • 53% afirmaram que não existe um período específico de maior abandono.
  • 14% citaram o abandono de animais em feriados prolongados.
  • 14% mencionaram férias escolares.

Os dados sugerem que os motivos do abandono de gatos pretos estão mais ligados a fatores estruturais do que a datas simbólicas. 

Períodos como feriados prolongados e férias escolares, por exemplo, podem coincidir com mudanças na rotina familiar ou falta de planejamento com os cuidados do animal.

Outro fator lembrado pelas ONGs envolve o ciclo reprodutivo dos felinos, já que durante a primavera, o número de ninhadas aumenta.

Isso acontece porque a falta de castração pode levar ao nascimento de filhotes indesejados, ampliando o número de gatos abandonados ou recolhidos.

Superstições podem influenciar o abandono de gatos pretos

Fonte: Envato

Embora datas como o Halloween ou sextas-feiras 13 não concentrem a maioria dos abandonos, as crenças culturais ligadas a esse imaginário ainda podem prejudicar os felinos de pelagem escura. 

Quando questionadas, 56% das organizações relataram já ter recebido casos de abandono ligados à superstição com gatos pretos, em menor ou maior frequência.

  • 17% disseram que já observaram casos com frequência
  • 39% afirmaram que isso ocorre ocasionalmente
  • 12% disseram que é raro
  • 29% nunca presenciaram esse tipo de situação
  • uma pequena parcela não soube responder

Os dados mostram que, mesmo não sendo o principal fator envolvido, o abandono de gatos por superstição acontece — um grande azar para estes felinos carinhosos.

Mas, por que os gatos pretos viraram símbolo do Halloween e da sexta-feira 13?

A ligação entre gatos pretos, azar e datas como a sexta-feira 13 ou o Halloween é tão antiga que muita gente até se esquece de como ela surgiu.

No caso da sexta-feira 13, a associação veio da combinação de dois elementos. Na tradição cristã, a sexta-feira é lembrada como o dia em que Jesus foi crucificado. 

Além disso, a narrativa da última ceia menciona a presença de 13 pessoas à mesa — número que, ao longo do tempo, passou a ser associado ao mau agouro.

Já a representação dos felinos como símbolo de azar durante as festas de Halloween é reflexo da associação entre os gatos e as bruxas, feita pelo Papa Gregório IX, em 1233.

Por se tratar do Dia das Bruxas, automaticamente o animal passou a ser um dos símbolos da festa, assim como abóboras e fantasias de bruxas.

A superstição acabou alimentando o preconceito contra gatos pretos, que ainda hoje aparece em diferentes contextos, como o abandono e adoção dos pets.

Gatos pretos demoram mais para encontrar um lar

Fonte: Envato

Apesar de ser uma crença medieval, o estigma de azarado impacta a vida dos gatos pretos até hoje — e a maior dificuldade destes felinos pode ser encontrar um lar. 

Afinal, a associação histórica entre a pelagem escura e a má sorte ainda influencia a percepção de alguns adotantes, fazendo com que esses pets sejam escolhidos por último.

Segundo os dados colhidos, o tempo de adoção de gatos pretos costuma ser maior quando comparado ao de felinos de outras cores em 56% das ONGs entrevistadas.

  • 34% das ONGs afirmaram que o tempo de adoção é muito maior.
  • 22% disseram que é um pouco maior.
  • 22% afirmaram que é semelhante ao de outras pelagens.
  • 20% relataram tempo menor de adoção.

Na prática, isso significa que uma parcela significativa dos gatos que demoram mais para adoção são justamente os de pelagem escura!

Em abrigos e lares temporários, não é incomum que esses animais tenham que esperar meses ou anos para encontrar uma família.

Preferência estética ainda é o principal obstáculo para a adoção

Quando questionadas sobre os fatores que explicam a dificuldade na adoção de gatos pretos, as ONGs apontaram que o principal desafio está relacionado à aparência do pet.

  • 39% — preferência estética por outras pelagens
  • 23% — superstição ou crenças populares
  • 8% — falta de campanhas específicas de adoção
  • 8% — dificuldade semelhante para todas as pelagens
  • 6% — dificuldade de fotografia ou visibilidade
  • 5% — afirmam que não existe dificuldade
  • 3% — mitos sobre agressividade felina/comportamento animal

Muitas vezes, gatos pretos são preteridos por animais de cores consideradas mais “chamativas” ou fotogênicas, como os felinos de pelagem branca ou laranja. 

Uma pena, já que estes pequenos são tão fofos quanto qualquer outro pet!

Em relação ao comportamento, algumas organizações também mencionam o impacto dos mitos sobre agressividade felina em gatos pretos, mesmo sem evidências científicas que comprovem a associação.

👉 Neste artigo completo, explicamos como a genética da pelagem de um gato pode influenciar o seu comportamento. Aproveite para ler!

ONGs reforçam critérios de adoção em datas sensíveis

Fonte: Envato

Os estigmas sobre gatos pretos também influenciam a forma como muitas organizações conduzem o processo de adoção dos felinos em determinados períodos do ano. 

Por isso, quando datas como a sexta-feira 13 ou o Halloween se aproximam, as instituições precisam reforçar o processo de triagem para garantir uma adoção consciente, como explica Ana Paula, presidente da ONG Gatil Irmã Francisca:

“É um momento em que precisamos redobrar a atenção e critérios para adoção de gatinhos pretos, focamos em disponibilizar apenas gatos castrados e para pessoas que além de preencherem todos os requisitos já cobrados como tela e não ter acesso à rua”, disse.

O objetivo é evitar que gatos pretos sejam adotados no calor do momento ou utilizados como parte de fantasias e depois descartados como simples objetos.

De acordo com a pesquisa, 80% das ONGs adotam cuidados extras na adoção de gatos pretos durante esses períodos como política formal, enquanto 17% fazem informalmente.

“O perfil de adoção para gatos pretos, em especial nessa época, segue critérios muito mais rígidos para tentar evitar adoção por impulso, brincadeira ou maldade”, afirma a protetora.

Para quem já tem um desses pets em casa, a atenção também deve ser redobrada, pois durante o mês de outubro, muitos felinos de pelagem escura sofrem com maus-tratos. 

Por considerarem os gatos como símbolos do azar, os animais acabam sendo agredidos de maneira até fatal durante essa época do ano.

Logo, o recomendado é reforçar telas e bloquear possíveis rotas de fuga, garantindo que o felino permaneça protegido dentro de casa.

Campanhas específicas ajudam a impulsionar a adoção de gatos pretos

Para reverter esse cenário triste, uma das estratégias utilizadas pelas organizações são as campanhas de adoção de gatos voltadas especialmente para os felinos de pelagem escura.

De acordo com a pesquisa do Cobasi Cuida, 51% das ONGs entrevistadas afirmam já ter realizado campanhas específicas para incentivar a adoção de gatos pretos

A ideia é aumentar a visibilidade dos felinos de pelagem escura e fazer com que potenciais adotantes tenham a chance de conhecer melhor esses animais.

Quando questionadas sobre quais ações ajudam a aumentar as adoções, as organizações destacaram diferentes formatos de divulgação, incluindo:

  • feiras de adoção (34%)
  • divulgação nas redes sociais (29%)
  • fotos profissionais dos animais (20%)
  • parcerias com marcas e influenciadores (15%)

Os dados mostram que as iniciativas que ampliam a exposição dos gatos e aproximam os animais do público podem ser a chave para aumentar a adoção dos felinos. 

Afinal, a maior arma contra o preconceito é o conhecimento. E quem já conviveu com um “morceguinho” sabe bem o quanto eles são apaixonantes!

Gatos pretos não dão azar: azar mesmo é não ter um em casa

Fonte: Envato

Os resultados deste novo estudo indicam que o principal impacto do estigma envolvendo gatos pretos acontece no momento da adoção — não necessariamente no abandono.

Até porque, embora os felinos não sejam abandonados com mais frequência, nem mesmo em datas simbólicas, como o Halloween, eles demoram mais para encontrar um lar.

Além disso, preferências estéticas, crenças populares e estigmas históricos continuam influenciando suas chances de adoção, mesmo que de forma indireta. 

Felizmente, os dados também mostram que as organizações de proteção animal têm buscado estratégias para mudar esse cenário!

Campanhas específicas e processos de triagem mais cuidadosos têm efeitos positivos e podem ajudar a reverter essa situação. E todos podemos ajudar.

Conheça o Cobasi Cuida

Nesse contexto, iniciativas como o Cobasi Cuida, pilar social da Cobasi, têm um papel importante no fortalecimento da proteção animal no Brasil. 

O projeto apoia ONGs por todo o país, incentiva a adoção responsável, promove campanhas educativas e amplia a visibilidade de animais que aguardam por um novo lar.

Ao adotar um gato preto, além de ganhar um companheiro charmoso, você também pode transformar uma história de abandono em um novo começo.

Quer saber como ajudar nossos projetos pela causa? Conheça o Cobasi Cuida e faça parte dessa transformação!

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